Andava com vontade de visitar as Caldas da Rainha desde que vi uma reportagem sobre os edifícios abandonados, que ainda elegantes, resistem à passagem do tempo no Parque D. Carlos I. No regresso a Lisboa, depois da visita ao Mosteiro da Batalha, o farto almoço pedia uma caminhada e este revelou-se o destino perfeito para um passeio. A localização é magnífica. No lago os patos e cisnes convivem com os barcos a remos, e os recantos de sombra sucedem-se entre as vastas áreas para brincar. Até existe um museu mesmo no centro do parque, dedicado ao grande pintor José Malhoa. No entanto é mesmo o enorme edifício abandonado que marca a paisagem, porque embora o interior esteja em estado preocupante, a fachada conserva a beleza de sempre.
A história remonta ao reinado de D. João V, quando se decidiu criar um parque de apoio ao hospital termal, para que os doentes em convalescença pudessem passear. No século XIX, Rodrigo Berquó,administrador do hospital remodelou profundamente o parque, tornando-o num dos mais atractivos e visitados do país. Ao mesmo tempo deu marcha ao seu sonho, criar uma estância termal de excelência, projectando os "pavilhões do parque”. Embora este enorme edifício tenha sido construído, quis o destino que nunca chegasse a cumprir a sua função. Nos 100 anos seguintes serviu de quartel militar, escola, esquadra de polícia e sede de várias entidades, até chegar ao estado de abandono em que hoje se encontra. Aparentemente a Câmara Municipal tem um plano para concessionar o espaço como hotel, mas o projecto tarda em arrancar. Esperemos que desta vez o sonho de Berquó saia do papel. Seria uma justa homenagem ver os "pavilhões do parque” finalmente a funcionar como um dos mais belos hotéis do país.
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Com o Verão a teimar em não aparecer, as idas à praia vão sendo adiadas e há que encontrar programas alternativos. Felizmente não faltam ideias e este fim de semana aproveitei para ir até à Batalha, visitar o Mosteiro que já há algum tempo andava nos meus planos.
Mandado construir por D. João I por volta de 1386, em agradecimento pelo triunfo na batalha de Aljubarrota, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória é um dos mais belos monumentos portugueses. Se à chegada a fachada impressiona, com as suas linhas góticas rendilhadas por apontamentos manuelinos, a escala, elegância e simplicidade da igreja são de cortar a respiração. Sobretudo quando a luz, em tom lilás, pinta levemente as colunas da nave central, filtrada pelos vitrais. Igualmente imponente e também com uma luz incrível, é a Capela do Fundador, onde está sepultado o Rei D. João I, a rainha Filipa de Lencastre e os príncipes de Avis.
Ao entrar nos claustros, uma surpresa. Desconhecia que numa das salas (a Sala do Capítulo), existe um túmulo ao Soldado Desconhecido, guardado por dois militares de sentinela. Quis a sorte que estivesse precisamente na hora da cerimónia do render da guarda, pelo que a entrada nos claustros se fez ao ritmo de uma marcha militar.
Nos claustros podem ainda ser vistas duas exposições temporárias, uma de trajes tradicionais e outra de grandes esculturas de maneira, dispostas ao longo dos corredores. Eram engraçadas, sem dúvida, à excepção de um pormenor importante. Uma delas foi colocada precisamente na entrada das Capelas Imperfeitas. Até sou uma pessoa que aprecia arte, como sabem, mas admito que fiquei vagamente aborrecido por me terem estragado a foto que mais queria tirar... Tal como a senhora de ontem, lá fiz as figuras que tinha de fazer. De joelhos por baixo do queixo da enorme estátua de madeira para conseguir fotografar o deslumbrante portal manuelino, uma das mais impressionantes obras do património português. Devido ao ângulo demasiado baixo, a foto não ficou bem como queria, mas com algum contorcionismo e muita paciência, lá consegui uma de que gostei. Ainda ponderei trepar para as cavalitas da pobre figura, mas achei que ser preso por atentado ao património era demasiado por uma boa foto - mas estive quase, admito. Para a próxima tenho de analisar o calendário de exposições com antecedência...
Como ultima nota, deixo uma sugestão. Durante os Sábados deste mês, mediante marcação, realizam-se visitas guiadas pelos telhados do Mosteiro, com o tema "Gárgulas: Função e Forma. Do Céu ao Solo". Infelizmente só soube disso no próprio dia e já não fui a tempo de aproveitar, mas fica a informação para que não percam a oportunidade.
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Andava eu a fotografar as Capelas Imperfeitas do Mosteiro da Batalha quando reparei em algo que me intrigou.
Cada uma das sete capelas é enquadrada por um pórtico, com pequenas colunas trabalhadas. Numa grande azáfama, uma senhora andava de coluna em coluna, repetindo o mesmo ritual. Debruçava-se sobre a base de pedra e ali ficava, curvada, como que a esconder a sua fastidiosa missão. Metodicamente seguia para a seguinte e tudo recomeçava. Intrigado, fiquei a observar, percebi que entre as mãos escondia um telemóvel. Aproximei-me e reparei que cada coluna tem na base uma pequena face esculpida, todas diferentes.
Sorri, entre o divertimento e a admiração. Afinal todos os fotógrafos já fizeram destas figuras, num qualquer projecto pessoal e não pude deixar de apreciar a dedicação.
Bem jogado minha cara colega. Bem jogado...
Quanto à minha visita ao Mosteiro da Batalha, não percam as fotos amanhã.
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A exposição abre com os retratos dos domadores de Hienas, que tornaram Pieter Hugo famoso e lhe valeram o World Press Photo em 2006. Lembro-me delas dessa altura e, no entanto, desconhecia o trabalho registado nas restantes 14 séries que compõem esta retrospectiva. Fico feliz por poder agora dizer que conheço um pouco mais da obra deste que é um dos fotógrafos incontornáveis dos nossos tempos. Ali estão momentos, pessoas, sentimentos, os contrastes que tanto fascinam o fotógrafo, imortalizados de uma maneira tão crua, tão bela e marcante que ainda hoje me continuam no pensamento, quase uma semana depois de ter estado na inauguração.
Marcado pelos "os vestígios visíveis e invisíveis e as cicatrizes das vivências biográficas e da experiência histórica nacional, Hugo mostra especial interesse pelas subculturas sociais, pelo fosso entre o idealizado e o real (...). O que é que nos divide e o que é que nos une? Como é que as pessoas vivem sob a sombra da repressão cultural ou do domínio político? O fotógrafo sul-africano Pieter Hugo (Joanesburgo, 1976) aborda estas questões nos seus retratos, nas suas naturezas-mortas e nas suas paisagens", numa grande exposição trazida a Portugal pelo Museu Colecção Berardo, a que hei de voltar pelo menos mais uma vez. A densidade temática, o impacto e a beleza daquelas fotografias assim o exige.
As fotografias estarão em exposição até Outubro, por isso não percam a oportunidade de as visitar, é absolutamente imperdível.
Uma exposição do Kunstmuseum Wolfsburg.
Pieter Hugo. Between the Devil and the Deep Blue Sea (Entre a Espada e a Palavra) Curadoria de Uta Ruhkamp. Patente até 07/10/2018, no Piso-1 do Museu Coleção Berardo. Aberto todos os dias, das 10h00 às 19h00 (última entrada: 18h30) - A entrada no Museu Berardo é gratuita aos Sábados.
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Logo no meu primeiro dia na cidade do Porto, no passado mês de Abril, visitei os Jardins do Palácio de Cristal. A luz do Sol já começava a pintar de laranja a foz do Douro, uma brisa fresca soprava entre as árvores centenárias e o som dos pássaros sobrepunha-se ao dos carros. Depois de vários quilómetros de caminhada pelas ruas da cidade, não podia ter escolhido uma maneira mais relaxante de terminar o passeio. Um final de dia perfeito, a que estas fotos dificilmente fazem justiça.
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Depois de décadas de planeamento e construção, o Aqueduto das Água Livres fez finalmente chegar aos chafarizes de Lisboa a água que tanto escasseava na capital, em 1748. Esta obra revolucionária, que permitiu triplicar o volume de água acessível à população, ainda não era, no entanto, suficiente para as necessidades da população. Com a construção da estação elevatória a vapor dos Barbadinhos e uma rede de canalizações que permitisse trazer mais água aos lisboetas, em 1880, a situação melhorou. Este precioso recurso continuava, no entanto, a não ser tão abundante quanto o desejável, com a média de litros disponíveis por habitante bem inferior à média das cidades mais desenvolvidas, e só no século seguinte, já perto dos anos 1940, a rede de distribuição começou a estar à altura das necessidades da cidade.
Estas são apenas algumas das curiosidades que aprendi na visita que fiz aos vários núcleos museológicos da EPAL – Empresa Portuguesa das Águas Livres. A pretexto dos 150 anos da empresa, tive a sorte de ser convidado a conhecer o Museu da Água, a subir ao imponente Aqueduto das Águas Livres e a descer às galerias subterrâneas que rasgam o subsolo do centro de Lisboa.
Museu da Água
O ponto de encontro estava marcado para o Museu da Água. Meio escondido em Alfama, não muito longe do Panteão Nacional, a antiga estação elevatória a vapor dos Barbadinhos, foi a maior surpresa da visita. Incrível como não conhecia este espaço, imperdível para conhecer um pouco mais da história da cidade. O Museu divide-se entre e a exposição permanente, num espaço renovado recentemente, cuja temática está reflectida na arquitectura fluida e futurista, e a antiga estação a vapor, que ainda mantém o aspecto e maquinaria originais. O espaço está tão bem preservado que uma das enormes máquinas ainda funciona, para efeitos demonstrativos.
Aqueduto das Água Livres
Da Estação dos Barbadinhos seguimos para uma visita ao aqueduto. Esta histórica infra-estrutura - a maior do género no mundo, em pedra e alvenaria - dispensa apresentações. Mesmo com o tempo chuvoso, a vista não deixa de impressionar, assim como a escala esmagadora do monumento que sobreviveu quase intocado ao terramoto de 1755.
Mãe d'Água
Rumo às Amoreiras, para a etapa mais aventureira desta visita. Primeiro a visita à Mãe d'Água, que à época em que foi construida funcionava como reservatório da água que aí chegava, através do aqueduto. Além da beleza sóbria do interior, ainda tive o privilégio de encontrar o artista David Oliveira a preparar a sua exposição naquele espaço. Após uma pausa para almoço, descemos ao subsolo, não sem antes equiparmos a rigor, com capacetes de segurança. Aqui encontrámos a entrada para um longo túnel, que na parte visitável se estende da Mãe d'Água até ao Reservatório da Patriarcal, localizado por baixo do Príncipe Real.
Reservatório da Patriarcal
O túnel permite atravessar esta zona da cidade de forma rápida (e fresca, o que agora no Verão é óptimo) e tem a particularidade curiosa de, ao longo do percurso, apresentar nas paredes os nomes das ruas que ficam uns metros acima. Conduz a este espaço incrível, que também não conhecia, o Reservatório da Patriarcal. Hoje em dia, também já não cumpre as funções para que foi construído, sendo agora palco de eventos, exposições e concertos. Da Patriarcal, saímos para o miradouro de São Pedro de Alcântara, dando como terminada esta visita, que nos levou pela história do abastecimento de água em Lisboa - que corre também em paralelo com a história da cidade nos últimos 150 anos.
Os 150 anos da EPAL
Visitar o aqueduto, os reservatórios, ou a estação a vapor dos Barbadinhos, é visitar artefactos históricos da cidade, que embora obsoletos na sua função, continuam como lembrança do engenho e perseverança de quem teve a visão para realizar estas obras ímpares. Para celebrar os 150 anos da EPAL, além de vários eventos, as entradas em todos estes espaços são gratuitas aos Sábados, até ao final do ano.
Ficaram com vontade de visitar?
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