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2299 fotos. Foram as que chegaram a casa, depois de 12 dias de férias. Entretanto fui apagando algumas, aquelas mesmo más. As que ficam tremidas, desfocadas, ou em que um turista mais ninja se atirou para frente da máquina.

 

Viajar para mim é tudo aquilo que escrevi no texto que publiquei ontem. Mas é também fotografar.

 

Uma vez ou outra, no entusiasmo fotográfico que me assola, digo para mim mesmo para desligar a máquina. Não quero ficar com a sensação de que só vi um sítio através da objectiva. Olho demoradamente para o que está à minha volta e tento fazer uma fotografia mental. Só minha. Porque afinal aquele é um momento que não se repete.

 

Depois de tudo, chego a casa, passo as fotos para o computador. Espero uns dias. Aprendi que é bom ter alguma distância da viagem antes de começar a ver as fotos.

 

Adoro este processo também. Ir escolhendo as preferidas, editá-las com calma. Até que fiquem como aquela "fotografia mental" que eu tinha tirado.

 

E depois... faço um livro.

 

 

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Viajar. Ou o elogio da aventura

Para quem ainda não leu, aqui fica o texto que publiquei no blog Delito de Opinião, há algumas semanas.

 

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Estados Unidos da América, Dezembro de 2015, 2h da madrugada. Conduzíamos rumo a Boston, na única etapa da viagem que não tinha sido planeada. Tinhamos feito cerca de dois terços de uma viagem de 900 km e a neve não dava tréguas. O ponteiro da gasolina estava a descer ainda mais que o da temperatura. Nada de preocupante, o GPS tinha a indicação dos postos de combustível. Primeiro posto - falhámos a saída. Não fazia mal, havia outro, umas dezenas de km mais à frente. Estava fechado. Com a gasolina já na reserva, o GPS não dava indicações de postos próximos. Para ajudar, a estrada tornava-se cada vez mais escura e estreita. Outros carros, nem vê-los.

 

Com o carro já a funcionar à base de fumos e boa vontade, eis que, qual oasis no meio do deserto, surge a placa com a palavra mágica. ”GAS”.

Finalmente! Parámos o carro e dirigimo-nos à funcionária da bomba, do outro lado do vidro. Sorriso nos lábios. Estávamos salvos!

— "Please, can we put some gas?"

— "No. This station is closed."

— "But we came from so far away, please let..."

— "GO AWAAAAY. I'LL CALL THE POLICE. GO AWAAAAAAAAAY. GO AWAAAAY. I'LL CALL THE POLICE. GO AWAAAAAAAAAY".

Afinal não. Não íamos pôr gasolina.

No meio do nosso desnorte, ainda tivémos a lucidez para olhar em volta. Mesmo ao virar da esquina, havia um hotel. Milagre dos milagres, uma cama, finalmente! A gasolina podia esperar pelo amanhecer...

 

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Viajar também é isto. Vou-me sempre lembrar do gelo a estalar sob os meus pés, ao caminhar num glaciar; da paisagem deslumbrante após uma caminhada de quase 20 quilómetros até à base do Fitz Roy; de ver uma baleia de bossa a brincar com a sua cria; ou do entusiasmo incontido de quando entrei na Euro Disney. Mas também não me vou esquecer daquela vez em que o carro quase ficou sem gasolina no meio do nada. Ou quando ficámos uma semana retidos em Londres, sem malas e em vésperas do Natal, porque um nevão fechou os aeroportos.


Viajar também é vermo-nos em situações que são maiores que nós. Viver algo diferente do que temos em casa. Não no sentido de arriscar, ou ser inconsciente. Mas de dar espaço à espontaneidade e aceitar o imprevisto.

 

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Resorts e excursões. Tanta gente viaja com guião definido ao milímetro. Saltar de monumento em monumento. De fila em fila. Conhece-se uma cidade através de uma montra. E nunca se chega a sair do nosso pequeno mundo.

 

Eu planeio sempre o que vou ver, claro. Os monumentos, os museus, os parques. Compro bilhetes, contrato guias... Mas também adoro a sensação de me perder numa cidade. Saber o destino, sem conhecer o caminho. Andar pelos bairros, sentir o pulso do local. Pedir indicações, falar com quem lá vive.


Viajar é sair dessa nossa bolha. Só conhecemos realmente um sítio, se também o virmos através dos olhos dos outros. Mudar a nossa perspectiva, aprender.

 

O acto de viajar é efémero, mas o que trazemos quando regressamos, fica connosco para sempre.

 

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Parque Nacional da Terra do Fogo, Argentina, Outubro de 2015. Terminámos a nossa caminhada junto a uma placa de madeira, à saída do parque. Marcava o final da Rota Panamericana - Um conjunto de estradas que liga, quase sem interrupções, o Alasca a Ushuaia.

 

“Aqui finaliza la Ruta N. 3. Buenos Aires 3.063 Km. Alaska 17.848 Km.” - Dizia, em letras amarelas gravadas na madeira.

 

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Seria só uma placa, e não lhe teria dado grande importância, se no dia anterior não nos tivéssemos sentado à mesa de Carlos Alvarez. O Carlos foi guarda florestal durante largos anos. Agora, reformado, gosta de falar desses tempos.

Enquanto nos preparava ovos mexidos e chá para o pequeno almoço, cheio de orgulho e um brilho nos olhos, contava como tinha construído aquela placa com as próprias mãos. Quando nos preparávamos para sair, veio ter connosco. “Não se esqueçam de tirar uma fotografia à minha placa” - disse com um sorriso de orelha a orelha.

 

Terminámos a nossa caminhada junto a uma placa de madeira, à saída do parque. Marcava o final da Rota Panamericana. E para nós, nunca seria uma placa qualquer. Era a placa do Carlos.

 

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A aldeia onde o tempo parou

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A vista sobre Piodão é magnífica, como já mostrei neste post, mas de perto não tem menos encanto.

 

Arrumadas num anfiteatro natural, as casas descem pela escarpa, culminando numa praça, o centro da vida da aldeia, e onde fica a igreja e a maior parte do comércio. Esta disposição tem o efeito curioso de fazer a povoação parecer ainda mais pequena. Nenhuma rua, além da praça, oferece uma visão ampla do conjunto. Ao percorrer as ruas de Piodão, mais parece que se está a percorrer um labirinto. Até porque com apenas 70 habitantes, a agitação nas ruas não é grande.

 

Ruas essas, em que todas as casas são de pedra, apenas salpicadas pelas portas e janelas azuis. O chão, as paredes, os telhados, tudo de pedra. A notável excepção é a igreja, que se destaca de maneira quase cómica no conjunto. É que como se não bastasse ser branca, tem uma arquitectura tão curiosa, que quando mais olho para ela, mais me parece feita de massapão.

 

Embora Piodão se posso percorrer de uma ponta à outra num instante, é fácil perder a noção do tempo. São vários os pormenores e recantos que nos abrandam o passo. Afinal, não é todos os dias que se visita uma aldeia onde o tempo parece ter parado.

 

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Foz d'Égua

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Lembro-me quando há uns anos, não muitos, vi pela primeira vez uma fotografia com uma pequena casa de xisto, ladeada por duas pontes de pedra...... Foi como se uma ilustração de um conto de fadas tivesse ganho vida.

 

"Foz d'Égua - Arganil", dizia a legenda. Mas até duvidei que fosse mesmo em Portugal... Nunca tinha visto, nem ouvido falar... Mas era... E desde aí que fiquei com vontade de por lá passar.

 

Quando há umas semanas decidi ir dar uma volta para fora de Lisboa, foi essa imagem que primeiro me veio à memória... A casa de xisto, ladeada por duas pontes de pedra...

 

A partir de Piodão, onde cheguei ao fim da tarde, o caminho até Foz d'Égua pode ser feito a pé, numa caminhada de cerca de 5 km, ou de carro, por estradas estreitas e sinuosas, mas em bom estado. Escolhi a segunda opção. Não era uma caminhada que quisesse arriscar fazer de noite...

 

Chegando a  Foz d'Égua, existe um pequeno parte de estacionamento, mas apenas lá estava o carro de um casal que aproveitava os últimos raios de Sol, na pequena praia fluvial. A ribeira tinha pouco caudal, e a ponte suspensa estava interdita, o que diminuiu o potencial fotográfico do cenário, mas a verdade é que o sítio parece tão mágico ao vivo como naquelas primeiras fotografias que vi.

 

Espero que agora, com estas fotos, desperte em alguém a vontade de visitar Foz d'Égua.

 

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Quente e frio

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Às vezes acontece. Quando estou a ver fotos antigas, há uma que me salta do ecrã e pede uma segunda oportunidade. 

 

Foi o caso desta. Nunca tinha dado por ela, e ontem vi-a como que pela primeira vez.

 

Tirei-a em Dezembro de 2010, em Toronto. Lembro-me que esta pintura me chamou à atenção, e de esperar que passasse alguém. Os meus amigos, meio impacientes, continuaram a percorrer a rua, e eu fiquei. Vi um borrão de cor, pelo canto do olho. Preparei a máquina. Numa velocidade lenta, para arrastar o movimento.

 

Click!

 

Não sei bem porque não liguei muito à foto, quando revivi a viagem em casa. Mas gosto dela. O contraste entre o tema da pintura, e o frio que se adivinha na realidade que a envolve. O homem que passa desinteressado, provavelmente ansioso por chegar a casa.

 

Resultou bem, o efeito de arrasto. Realça a indiferença do homem a esta leve promessa de dias mais quentes, e a pressa que o frio empresta ao seu passo. E até tive sorte na cor do casaco. O quente e o frio que se complementam. Nas cores e nos motivos.

 

Nunca tinha dado por ela, e ontem vi-a como que pela primeira vez... Acontece.

 

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